Pensando que palavras não são só signos, mas também ferramentas de moldar o mundo, elas nos permitem nomear o que sentimos, articular o que vemos, imaginar o que ainda não existe. No universo técnico, muitas palavras também nomeiam processos da vida cotidiana — e é nesse encontro entre a linguagem técnica e a política que nasce este convite.
Tomemos a velha conhecida palavra resistência. Resistir ao capital, à colonização, ao apagamento, à extração: resistir é um verbo de sobrevivência. Mas, na eletrônica, a resistência está entre correntes e tensões. Enquanto é verdade que resistir salva vidas, o resistor — o componente que resiste — se vê deteriorado diante de tamanho esforço para transformar corrente em calor. O efeito Joule não perdoa: quanto mais intensa a passagem de energia, mais o resistor se desgasta até se romper.
Do resistor ao transistor: uma virada cognitiva
Um experimento mental com outro componente eletrônico, o transistor, nos leva à ideia de transistência. Diferente da resistência, que é uma grandeza do resistor, a transistência não é uma grandeza do transistor: é uma apropriação crítica de um conceito técnico, passível de inspirar um comportamento coletivo mais elaborado — uma forma de existência que não apenas se opõe ao que oprime, mas que também modula, transforma e redireciona as forças que nos atravessam.
Inventado em 1947, o transistor substituiu as volumosas válvulas e está no coração de todos os computadores, celulares e redes. Enquanto o resistor resiste à corrente, o transistor molda a corrente: amplifica um sinal fraco, atua como interruptor, controla grandes fluxos de energia com mínima entrada. E, mais que isso, não se queima com a passagem da corrente — ele transfere resistência, amplifica e redireciona a energia. O transistor se comporta como uma porta inteligente, um nó de transformação: permite que um sinal fraco comande um fluxo poderoso.
Durante muito tempo, nossas lutas foram pensadas como resistências. Mas, se voltamos a fazer esse encontro entre linguagens — a técnica e a política, a eletrônica e o cotidiano — não parece viável nos mantermos somente em modo de resistência. Daí surge a transistência: não mais uma postura de oposição pura, mas uma transresistência ativa. Não um “não” fixo, mas um “como?” e um “pra onde?”, em inevitável movimento. Não um corpo que se opõe até se esgotar, mas um corpo que se deixa atravessar para reconfigurar o campo.
Transistir a máquina que nos atravessa
Nossos corpos, mentes e relações já são híbridos técnico-biológicos. A máquina não está mais “lá fora”: ela já habita nossa cognição. Diante do inevitável, há dois caminhos: usar a máquina como nebulizador dos nossos pensamentos e percepção — reativos, dispersos, disponíveis o tempo todo no aplicativo de mensagens — ou usá-la como lente, novamente, como Galileu, para tornar o mundo mais nítido.
O componente transistor tem uma base que precisa de um resistor polarizando-a: é como se essa polarização o direcionasse em sua missão no circuito. Assim como num circuito eletrônico, os movimentos de transistência precisam ser polarizados pelos movimentos de resistência para moldar a máquina que nos atravessa.
A transistência se manifesta nos quilombos digitais que tecem infraestruturas próprias de comunicação; nas redes comunitárias que criam sua própria infraestrutura; nos coletivos de tecnologia feminista que reprogramam o desejo fora da lógica da extração; nos movimentos indígenas que desenvolvem seus próprios servidores locais para demarcação das telas; nas agroflorestas que curam o solo e o espírito ao mesmo tempo.
A urgência que essa dialógica revela é aprender a ler as ciências que nos atravessam — não para nos tornarmos engenheiros do sistema, mas técnicos da transformação. Quanto mais entendermos os princípios que regem as máquinas que habitam nosso cotidiano, mais poderemos desmontar suas lógicas opressoras e reprogramar seus sentidos. A transistência nasce desse encontro: entre o saber técnico e o desejo coletivo, entre a física dos semicondutores e a poética da organização.
Onde a transistência já acontece
Essa virada não é apenas teórica: ela já acontece em territórios onde a tecnologia deixa de ser imposta para se tornar cocriada. No projeto de extensão SEMEA-TEC, com comunidades de agricultura familiar, desenvolvemos dispositivos de comunicação de baixo consumo que funcionam com baterias solares ou energia extraída do ambiente: sensores que avisam, via rádio LoRa, quando uma cerca elétrica foi rompida por javalis, ou quando o nível de um tanque de irrigação está crítico. Esses aparelhos não precisam da nuvem, não coletam dados para vender, não exigem atualizações mensais. São feitos com componentes acessíveis, montados junto com os agricultores, em oficinas que misturam saberes técnicos e populares.
É nesse gesto de projetar tecnologias que servem à vida, e não ao lucro, que a transistência se concretiza. Enquanto o modelo comercial extrai energia, dados e atenção para alimentar cadeias globais de valor, essas práticas relocalizam a inovação, tornando-a energeticamente frugal, socialmente útil e cognitivamente clara. Não se trata de recusar a ciência, mas de reorientá-la: ao invés de uma ciência que serve ao capital, uma ciência que serve aos territórios.
E nesse movimento, o transistor deixa de ser apenas um componente e torna-se um símbolo do que é possível quando a tecnologia é feita com, e não para.
Este texto é uma versão do ensaio Um Convite à Transistência, publicado na revista TOCAIA nº 1, e dá nome à Transistir Social Tech.