O SEMEA-TEC (Semeando Soluções Tecnológicas na Agricultura Familiar) é um projeto de extensão da Unifesp — campus São José dos Campos (ICT) — que atua na interseção entre computação, eletrônica, extensão rural e metodologias participativas. Nosso propósito é desenvolver tecnologias sociais de baixo custo e baixo consumo energético voltadas à agricultura familiar, enfrentando a exclusão digital que aprofunda desigualdades históricas no campo.
O projeto está organicamente vinculado à minha pesquisa de doutorado no PPGIT/Unifesp: enquanto a extensão opera como laboratório vivo de escuta e cocriação com as comunidades, o doutorado investiga os fundamentos técnico-científicos para que esses sistemas alcancem máxima autonomia energética — com baterias que captam energia do ambiente (harvest energy), baseadas em materiais não tóxicos e de baixo impacto — e viabilidade econômica para escala.
Como trabalhamos
Adotamos o Action Design Research (ADR) como metodologia central: antes de qualquer linha de código ou solda, vamos a campo com as organizações parceiras para uma escuta ativa e um diagnóstico participativo das necessidades reais. Só então partimos para a cocriação de protótipos, testes nas propriedades e ciclos iterativos de melhoria. Agricultores e agricultoras estão no centro do debate — não como beneficiários passivos, mas como coprodutores da inovação.
Nossa fundamentação teórica ancora-se nas Epistemologias do Sul (Boaventura de Sousa Santos), na Tecnologia Social (Dagnino, Thomas) e no compromisso com uma transição ecológica justa, alinhando o trabalho aos ODS 1, 4, 7, 9 e 13.
Duas rodadas já realizadas
JavAlarm — monitoramento de cerca elétrica via LoRa
O primeiro ciclo nasceu da observação de uma prática consolidada no território: agricultores familiares do Vale do Paraíba usam cercas elétricas contra invasores, especialmente javalis (Sus scrofa), e muitas vezes só descobrem a falha da cerca dias depois, quando o prejuízo já aconteceu.
O JavAlarm é um sistema de baixo custo e baixo consumo para detectar falhas de cerca elétrica: um transmissor conectado à cerca capta os pulsos de alta tensão (na casa dos kV) com um circuito analógico inspirado nos voltímetros de cerca do camponês, e um microcontrolador com transceptor LoRa (915 MHz) transmite o alerta com protocolo próprio de confirmação — se o receptor estiver offline, o transmissor retransmite até obter reconhecimento, garantindo que nenhuma queda de tensão passe despercebida. O consumo foi otimizado para 114 mA em transmissão e 32 mA em repouso, permitindo semanas de autonomia com baterias comuns.
Shitakiometer — sensoriamento autônomo de estufas
O segundo ciclo atendeu produtores de cogumelos, que precisam acompanhar temperatura, umidade relativa e concentração de CO₂ nas estufas. O Shitakiometer integra sensores DHT22 e MH-Z19B/SCD40 (CO₂ por NDIR) a uma plataforma ESP32 com rádio LoRa, firmware com deep sleep e alimentação por painel solar 5V/1,25W com bateria 18650 — mirando operação contínua com balanço energético positivo.
No backend: gateway LoRa → broker MQTT (Mosquitto) → Node-RED → InfluxDB → dashboards em tempo real no Grafana, com alertas na linguagem do agricultor (Telegram/WhatsApp).
Parcerias e próximos passos
O trabalho é desenvolvido com estudantes de graduação da Unifesp e organizações que estão na lida diária do campo: Associação Portal Sem Porteiras (Monteiro Lobato-SP), Akarui (São Luiz do Paraitinga-SP) e Associação Apoena.
No horizonte: integração completa do JavAlarm, case à prova de intempéries, bootloader com atualização remota de firmware, e um ecossistema de inovação descentralizada que combine rádios de baixa potência, protocolos leves e harvest energy — formando não apenas tecnologia, mas autonomia técnica e soberania digital para as comunidades rurais.
Os resultados — protótipos, manuais e cartilhas — serão disponibilizados em plataformas de acesso aberto e compartilhados com as comunidades em encontros presenciais, feiras de extensão e fóruns de tecnologia social. Uma primeira versão dessas histórias foi apresentada no DWeb Camp 2026, na sessão Semea-tec: seeding tech, growing autonomy.